"Vamos lá fora", foi assim que senti que a tal conversa que precisávamos de ter ia acontecer naquele exacto momento. Não adiantava fugir, dizer algo como 'desculpa, mas agora não dá muito jeito' porque mais cedo ou mais tarde teria de te encarar. Deste-me a lembrança que tinhas trazido da tua viagem e explicaste-me o porquê de não me teres falado durante mais de uma semana. "O que é que pensaste?", queria dizer-te que pensei que finalmente me tinhas dado ouvidos, que estavas a seguir em frente e que sinceramente isso me tinha perturbado, mas em vez disso saiu-me um redondo "Nada."
Quando me pediste para ser sincera e eu te dei em troca um "Não. Força, segue." apercebi-me que não sabia o que estava a fazer, a dizer. Não sei se foi uma resposta dada apenas para silenciar o teu pedido, ou se pelo contrário é o que sinto, embora não negue a pessoa especial que és para mim. Vi tristeza, incompreensão, desilusão no teu olhar... Senti-me pequenina ao ouvir-te dizer o quão feliz andaste durante a viagem por acreditares que um 'nós' era possível ("e eu ingénuo...") em como achaste que iria aceitar o teu convite. Talvez a culpa seja minha por deixar os meus lábios dizerem algo que os meus olhos contrariam, mas sempre te disse para não criares ilusões, expectativas vãs. Fui sincera acerca do meu passado e de como ele ainda hoje me perturba. "Tens medo de te voltar a envolver com alguém?" esquece o "talvez" que te dei, porque a verdade é que tenho, muito mesmo. E sei bem que és diferente dele, percebo-o pela maneira como demonstras gostar de mim, mas ele deixou comigo uma insegurança e desconfiança que me fazem vacilar em tudo o que me envolvo. Ele também me convenceu a mim, e todos os que nos rodeavam, de que os sentimentos que tinha eram verdadeiros. E eu tenho medo de acreditar e mais uma vez ser tudo uma valente mentira. Ou de não o conseguir apagar totalmente e termos de levar com o fantasma dele por entre nós. Ou de te magoar, magoar muito, mais do que já tenho feito.
Cerca de hora e meia depois a questão era a de se me deverias devolver o puxo que me tiraste e que já conservas há mais de um mês. Se mo desses então eu saberia que a partir dali farias os possíveis para me esquecer, e por isso quando me perguntaste o que achava que deverias fazer disse calmamente "acho melhor mo dares". (...) "Estás a ver isto aqui?" - disseste tu enquanto apontavas para o puxo - e foi quando olhei fixamente para ti que te pude ver, decidido e determinado, a colocá-lo novamente no pulso. Instantaneamente, e sem sequer saber o porquê, sorri para dentro.